Comentário de livro Bíblico: 1 Crônicas

27/08/2007




Autoria e Data 
Os livros 1 e 2 Crônicas também eram originalmente um só livro. No texto original hebraico, formavam um só livro chamado de “Acontecimentos dos Dias”. Como a identidade do autor dessa obra não é apresentada no texto, muitos optaram por se referir a esse autor desconhecido simplesmente como “o cronista”.
 
No entanto, Esdras é o candidato mais provável para a autoria de Crônicas, lembrando sempre que no mundo antigo não existe a preocupação com direitos autorais - o autor não é necessariamente quem terminou o texto, mas sim quem começou a escrever ou a passar o ensinamento. A antiga tradição judaica do Talmude afirma que Esdras escreveu o livro.
 
O que reforça a tese da autoria de Esdras (ou de alguém que “bebeu” na sua fonte e escreveu Crônicas) é o texto dos versículos finais de 2 Crônicas (36.22,23), que aparecem também como os versículos iniciais de Esdras (ver Edras 1.1-3 – o último versículo, de mesmo conteúdo histórico, pode apresentar variações na forma como foi escrito). Isso não apenas reforça o argumento que aponta Esdras como autor de Crônicas, mas pode ser também uma indicação de que Crônicas e Esdras tenham sido em algum momento uma única obra, talvez unindo os dois livros de Crônicas com o livro de Esdras e, quando houve a separação, o início do livro de Esdras ficou sendo o final do livro de Crônicas (no caso, do 2º livro, após a divisão). Soma-se a isso o fato de que 1 e 2 Crônicas e Esdras tenham estilo, vocabulário e conteúdo similares.
 
Dessa forma, entendemos o seguinte: quando Esdras escreveu, ele teria feito um único livro, que seria o esboço dos dois livros de Crônicas que temos hoje e o seu próprio livro. Desse escrito de Esdras, alguém que teve acesso a essas informações e a outras mais, direcionado pelo Espírito Santo, compilou o texto que temos hoje, com as informações já apresentadas por Esdras e outras que talvez tenham partido do próprio Esdras, mas que não fariam parte do texto original. E o compilador, historicamente posterior ao escritor do texto, teve acesso a mais informações históricas e pôde ampliar o texto, chegando a essa forma que temos hoje.
 
Por conta da incerteza do período histórico do compilador, fica difícil estabelecer a data exata para 1 e 2 Crônicas. É provável que a sua forma final tenha surgido lá pelo final do século V a. C. O último evento registrado nos versículos finais de 2 Crônicas é o decreto de Ciro, rei da Pérsia, que dá licença de volta dos judeus para Judá. Esse decreto é datado com de 538 a. C. e temos a impressão de que Crônicas foi escrito (no texto que deu origem ao texto final) pouco tempo depois, quando o povo volta pra casa e precisa ter o resgate da história de sua nação.
 
No entanto, não podemos descuidar da informação da última pessoa mencionada na Genealogia dos reis em Crônicas, que é Anani, décima geração do rei Jeoaquim (ver 1 Crônicas 3.16-24). Jeoaquim foi deportado pra a Babilônia em 597 a. C. Se cada geração for medida com cerca de 25 anos, o nascimento de Anani pode ter acontecido por volta de 400 a. C., o que nos levaria a uma data para situar o texto final de Crônicas (que temos dividido em 2 livros) após esse evento.
  
O livro
O livro de 1 Crônicas cobre o período que vai de Adão até a morte de Davi, por volta de 971 a. C. É um período de tempo extraordinário, pois abrange o mesmo período coberto pelos primeiros 10 livros do Antigo Testamento, de Gênesis até 2 Samuel. Isso nos leva a entender que Crônicas procura resgatar a história, e vemos isso logo no começo, quando há uma preocupação com a Genealogia, voltando até Adão. Se as genealogias de 1 Crônicas 1-9 fosse ignoradas, 1 e 2 Crônicas cobririam aproximadamente o mesmo período de tempo de 1 e 2 Reis. Logo, a citação da Genealogia é importante, porque Israel precisava se reafirmar como nação que possuía tradições históricas.
 
O livro, no entanto, foi escrito num cenário específico: o período de tempo que vem depois do exílio. Durante essa época, o mundo antigo estava sob o controle do poderoso Império Persa. Tudo o que restou dos gloriosos reinados de Davi e Salomão foi a pequena província de Judá.
 
Apesar do povo de Deus ter recebido licença para voltar a Jerusalém e reconstruir o templo, a sua situação era muito diferente da dos anos dourados de Davi e Salomão.

Quando o livro que, originalmente era um, foi dividido, recebeu um novo nome, dado pelos tradutores do Antigo Testamento em grego (Septuaginta ou LXX): “Coisas que Acontecem”. Mudou de “Acontecimento dos Dias” (que mostra claramente a ideia de relatar fatos históricos a um povo específico - Judeus) para “Coisas que Aconteceram” (parecendo querer mostrar para qualquer pessoa os eventos ocorridos). O nome atual, Crônicas, foi dado por Jerônimo. Não é uma continuação da história do povo de Deus, mas uma duplicação e um suplemento de 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis, um texto bem específico historicamente, dentro de seu contexto.

Esboço de 1º Crônicas 
I. As Genealogias1.1- 9.44
  A herança dos filhos de Jacó 1.1 - 2.2
  A herança da linhagem de Davi em Judá 2.3 - 3.24
  A herança das doze tribos 4.1 - 8.40
  A herança do remanescente 9.1-34
  A herança do rei Saul em Benjamim 9.35-44
 
II. O reinado do rei Davi 10.1 - 29.30
  A confirmação de Davi como rei 10.1 - 12.40
  A aquisição da arca por Davi 13.1 - 17.27
  Progressos militares de Davi 18.1 - 20.8
  Preparativos de Davi para a construção do templo 21.1 - 27.34
  Últimas declarações de Davi 28.1 - 29.30
 

Forte abraço.
Em Cristo,
Ricardo, pastor

Esta meditação foi enviada em 27/08/07 por e-mail.