Comentário de Evangelho: Lucas

27/11/2006

 

Autoria
Tanto o estilo quanto a linguagem oferecem evidências convincentes de que a mesma pessoa escreveu Lucas e Atos. “O primeiro tratado” - Atos 1.1 é, então uma referência ao que conhecemos hoje como terceiro evangelho. E o fato de o escritor declarar encaminhar ambos os livros a Teófilo também demonstra solidamente uma autoria comum. Visto que a tradição de igreja atribui com unanimidade essas duas obras a Lucas, o médico, um companheiro próximo de Paulo (Colossenses 4.14; Filemom 24; 2 Timóteo 4.11), e, como as evidências internas sustentam esse ponto de vista, não há motivos para contestar a autoria de Lucas.
 
Data
Eruditos que admitem que Lucas usou o Evangelho de Marcos como fonte para escrever seu próprio relato datam Lucas entre os aos 70 d.C. e 80 d. C., enquanto outros salientam que Lucas o escreveu antes de Atos, que ele escreveu durante o primeiro encarceramento de Paulo pelos romanos, cerca de 63 d. C.

Como Lucas estava em Cesaréia de Filipe durante os dois anos em que Paulo ficou preso lá (Atos 27.1), ele teria uma grande oportunidade durante aquele tempo para conduzir investigações que ele menciona em 1.1-4. Se for este o caso, então o Evangelho de Lucas pode ser datado por volta de 59-60 dC, mas no máximo até 75 d. C., com redação final até 80 d. C., acreditamos.
 
O Evangelho
Uma característica distinta do Evangelho de Lucas é sua ênfase na universalidade da mensagem cristã. Do cântico de Simeão, louvando Jesus como “luz... Para as nações” (2.32) ao comissionamento do Senhor ressuscitado para que se “pregasse em todas as nações” (24.47), Lucas realça o fato de que Jesus não é apenas o Libertador dos judeus, mas também o Salvador de todo o mundo. O que contribui com a tese de que Lucas teria feito sua investigação para escrever com o apoio de Paulo.

Lucas inclui muitas características que demonstram universalidade. Ele enquadra o nascimento de Jesus em um contexto romano (2.1-2; 3.1), mostrando que o que ele registra tem significado para todas as pessoas. Ele enfatiza ainda, as raízes judaicas de Jesus. De todos os escritores dos Evangelhos, só ele registra a circuncisão e dedicação de Jesus (2.21-24), bem como sua visita ao Templo quando menino (2.41-52). Somente ele relata o nascimento e a infância de Jesus no contexto de judeus piedosos como Simeão, Ana, Zacarias e Isabel, que estavam entre os fiéis restantes “esperando a consolação de Israel” (2.25). Por todo o Evangelho, Lucas deixa claro que Jesus é o cumprimento das esperanças do Antigo Testamento relacionadas à salvação.

Um versículo chave do evangelho de Lucas é o 19.10, que declara que Jesus “veio buscar e salvar o que se havia perdido”. Ao apresentar Jesus como Salvador de todos os tipos de pessoas, Lucas inclui material não encontrado nos outros evangelhos, como o relato do fariseu e da pecadora (7.36-50); a parábola do fariseu e o publicano (18.9-14); a história de Zaqueu (19.1-10); e o perdão do ladrão na cruz (23.39-43).

Lucas ressalta as advertências de Jesus sobre o perigo dos ricos e a simpatia dele pelos pobres (1.53; 4.18; 6.20-21; 24-25; 12.13-21; 14.13; 16.19-31; 19.1-10).

Este evangelho tem mais referências à oração do que os outros evangelhos. Lucas enfatiza especialmente a vida de oração de Jesus registrando sete ocasiões em que Jesus orou que não são encontrados em mais nenhum outro lugar (3.21; 5.16; 6.12; 9.18,29; 11.1; 23.34,46). Só Lucas tem as lições do Senhor sobre a oração ensinada nas parábolas do amigo importuno (18.9-14). Além disso, o evangelho é abundante em notas de louvor e ação de graças (1.28, 46-56, 68-79; 2.14, 20, 29-32; 5.25-26; 7.16; 13.13; 17.15; 18.43).
 
A revelação do Salvador
Além de apresentar Jesus como o Salvador do mundo, Lucas dá os seguintes testemunhos sobre ele:

Jesus é o profeta cujo papel equipara-se ao Servo e Messias (4.24; 7.16,39; 919; 24.19);

Jesus é o homem ideal, o perfeito salvador da humanidade. O título “Filho do Homem” é encontrado 26 vezes no evangelho;

Jesus é o Messias. Lucas não apenas afirma sua identidade messiânica, mas também tem o cuidado de definir a natureza de seu messianismo. Jesus é, por excelência, o Servo que se dispõe firmemente a ir a Jerusalém cumprir seu papel (9.31.51). Jesus é o filho de Davi (20.41-44), o Filho do Homem (5.24) e o Servo Sofredor (4.17-19, que foi contado com os transgressores - 22.37);

Jesus é o Senhor exaltado. Lucas refere-se a Jesus como “Senhor” dezoito vezes em seu evangelho.

Jesus é o amigo dos marginalizados e humildes. Ele é constantemente bondoso para com os rejeitados.
 
A Atividade do Espírito Santo
Há dezesseis referências explicitas ao Espírito Santo, ressaltando sua obra tanto na vida de Jesus quanto no ministério continuo da igreja.

Em primeiro lugar: a ação do Espírito Santo é vista na vida de várias pessoas fiéis, relacionadas ao nascimento de João Batista e Jesus (1.35, 41, 67; 2.25-27), bem como no fato de João ter cumprido seu ministério sob a unção do Espírito Santo (1.15). O mesmo Espírito capacitou Jesus para cumprir seu ministério.

Em segundo lugar: O Espírito Santo capacita Jesus para cumprir seu ministério - o Messias ungido pelo Espírito Santo. Nos caps 3-4, há cinco referencias ao Espírito, usadas com força progressiva.

1) O Espírito desce sobre Jesus em forma corpórea, como uma pomba (3.22);

2) Ele leva Jesus ao deserto para ser tentado (4.1);

3) Após sua vitória sobre a tentação, Jesus volta para a Galiléia no poder do mesmo (4.14);

4) Na sinagoga de Nazaré, Jesus lê a passagem messiânica: “O Espírito do Senhor está sobre mim” (4.18; Is 61.1-2), reivindicando o cumprimento nele (4.21);

5) Evidencia seu ministério carismático que está repleto (4.31-44), e continua em todo seu ministério de poder e compaixão.

Em terceiro lugar: O Espírito Santo, através de oração de petição, leva a cabo o ministério messiânico. Em momentos críticos, Jesus ora antes, durante ou depois do acontecimento crucial (3.21; 6.12; 9.18,28; 10.21). O mesmo Espírito Santo que foi eficaz através de orações de Jesus, dará poder nas orações dos discípulos (18.1-8) e liga o ministério messiânico de Jesus ao ministério poderoso deles e a nós, através da igreja (24.48.49).

Em quarto lugar: O Espírito Santo espalha alegria tanto a Jesus como a nova comunidade. Cinco palavras gregas denotando alegria ou exultação são usadas duas vezes com mais frequência tanto Lucas como Mateus ou Marcos. Quando os discípulos voltam com alegria de sua missão (10.17), “Naquela mesma hora, se alegrou Jesus no Espírito Santo e disse...” (10.21). Enquanto os discípulos estão esperando pelo Espírito prometido (24.49), “adorando-o eles, tornaram com grande júbilo para Jerusalém. E estavam sempre no templo, louvando e bendizendo a DEUS” (24.52-53).
 
Esboço de Lucas
I. Prólogo 1.1-4

II. A narrativa da infância 1.5-2.52
  Anúncio do nascimento de João Batista 1.5-25
  Anúncio do nascimento de Jesus 1.26-38
  Visita de Maria a Isabel 1.39-56
  O nascimento de João Batista 1.57-80
  O nascimento de Jesus 2.1-40
  O menino Jesus no templo 2.41-52
 
III. Preparação para o ministério público 3.1-4.13
  O ministério de João Batista 3.1-20
  O batismo de Jesus 3.21-22
  A genealogia de Jesus 3.23-38
  A tentação 4.1-13
 
IV. O ministério Galileu 4.14-9.50
  Em Nazaré e Carfanaum 4.14-44
  Do chamamento de Pedro ao chamamento dos doze 5.1-6.16
  O Sermão da Montanha 6.17-49
  Narrativa e diálogo 7.1-9.50
 
V. A narrativa de viagem (no caminho para Jerusalém) 9.51-19.28

VI. O ministério de Jerusalém 19.29-21.38
  Acontecimentos na entrada de Jesus em Jerusalém 19.29-48
  História de controvérsias 20.1-21.4
  Discurso escatológico 21.5-38
 
VII. A paixão e glorificação de Jesus 22.1-24.53
  A refeição de Páscoa 22.1-38
  A paixão, morte e sepultamento de Jesus 22.39-23.56
  A ressurreição e a ascensão 24.1.53

 

Forte abraço.
Em Cristo,
Ricardo, pastor

Esta meditação foi enviada em 27/11/06 por e-mail.