Política, Futebol e Religião não se discute!

15/11/2006

 

Hoje, mais um feriado, para quem está no Brasil (como há quem leia esta mensagem fora de nosso país, vale a ressalva). Comemora-se a Proclamação da República. Para ler sobre o assunto, recomendo os sites:
 
http://www.culturabrasil.pro.br/proclamacaodarepublica.htm
http://www.senado.gov.br/comunica/historia/Proclam1.htm
http://www.senado.gov.br/comunica/historia/decimas.htm
 
Pensando na comemoração de hoje e lembrando de uma frase que ouvi muitas vezes ao longo dos anos e voltei a ouvir há pouco mais de uma semana, quero meditar um pouco sobre a veracidade da frase que citarei agora:

Política, Futebol e Religião não se discute!

Será que é isso mesmo? Será que não podemos discutir esses assuntos?
 
Acredito que essa frase foi formulada por alguém que queria impor o seu time de futebol, a sua opção política e religiosa a todas as pessoas. Alguém que queria ser ditador ou quem sabe apenas fazer com que o povo não pensasse sobre essas coisas e então ter a chance de se manter no poder.
 
Acho, ainda, que essa frase pode ser fruto da necessidade de ter outra razão, que a verdadeira, para fazer com que o povo tome cuidado com a forma que vai agir. Por exemplo: dizem que passar por baixo de uma escada dá azar. Como as pessoas iam desatentas pela rua e passavam por baixo de escadas onde havia pessoas trabalhando em cima e alguns acidentes aconteciam, apelou-se para a superstição para que as pessoas lembrassem que não deveriam passar por baixo da escada. Vai ter azar quem passar se em cima, quem estiver trabalhando, deixar cair uma lata de tinta ou uma ferramenta. Aí, para que o povo lembrasse de tomar cuidado, criativamente (e na minha opinião, com um péssimo gosto para criar histórias, já que superstições não colam pra mim, a não ser que seja para rir das mesmas) criou-se a lenda que passar por baixo de uma escada dá azar. Era mais fácil ao povo lembrar da superstição do que olhar antes de passar e verificar a possibilidade ou não de um acidente.
 
Assim, acho que a frase que citei nasce também do fato que as pessoas não sabem respeitar a opinião dos outros e, portanto, se acredita que esses assuntos não podem ser discutidos.
 
Mas, não podem mesmo?
 
Futebol. Um comentarista esportivo diz (e na minha opinião está com a razão) que o “futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes” (Milton Neves – pelo menos é ele quem vejo dizendo isso. Se a frase é de outro antes dele, peço desculpas). É o assunto que domina os almoços, as rodas de amigos, o que chama a atenção num jornal no dia seguinte a uma rodada... Como não discutir isso? Se não devemos discutir futebol, por que existem comentaristas? Por que existem as chamadas “mesas-redondas”? Os programas esportivos? O que precisa existir é o respeito ao outro. Não dá pra defender seu time apaixonadamente. Pode dar IBOPE a um programa ter um comentarista apaixonado, mas com o tempo vai cansar. Aí, realmente, não dá pra discutir futebol. Mas admitir que um time foi melhor que o seu a partir da realidade de um jogo, reconhecer que seu time foi melhor, observar acertos e erros de arbitragem, tudo de forma educada, respeitando que o outro possui o direito de ter uma opinião diferente, permite a possibilidade da discussão sobre futebol. Eu, corinthiano que sou, consigo discutir com palmeirenses sem nenhum problema, desde que consigamos manter o nível da realidade dos times e não a defesa apaixonada apenas. Se alguém vai pelo caminho da defesa apaixonada, prefiro realmente fugir da discussão. Mas de forma saudável, agradável e falando sobre a realidade (com algumas brincadeiras apaixonadas, claro) é possível sim discutir futebol.
 
Política. Não se discute? Então, por que temos eleições? Debates? Horário eleitoral? Plebiscito? Referendos? Se não discutirmos política, corremos o risco de amargar 4 anos ruins depois de uma eleição errada e dependendo da área (educação, por exemplo, onde alguém venha a ser formado com uma política errada para a área) podemos ter que esperar até 20 anos para uma mudança (quando novas políticas começam a dar resultado). Mais uma vez não se pode discutir apaixonadamente. Onde há erros, devem ser admitidos! Não devemos votar apenas por votar. Mas devemos avaliar. Não aceitar algo que seja falado (quer seja bom ou ruim), mas devemos pesquisar para verificar a veracidade. Eu descobri em sites oficiais de governo (não da imprensa, não de partidos diferentes... em sites oficiais de governo) muitas coisas diferentes que os candidatos diziam no horário eleitoral... Diziam coisas boas que nem mesmo os sites oficiais confirmavam! Assim, entendo que dá pra discutir política. Na verdade, precisamos! Mas não podemos abrir mão do direito do outro de ter uma opinião contrária à nossa. Claro que podemos nos chatear quando alguém vem com um discurso pronto, facilmente desmontado numa conversa e essa pessoa, mesmo assim, não querer ver o que estamos apresentando. Mas, mesmo assim, o outro tem direito a uma opinião contrária à sua. E democracia não é vitória nas urnas! Vitória nas urnas é eleição. Democracia é o chamado “governo do povo”. Se o povo não discute, não reclama com seus representantes, não conversa com quem tem opinião diferente, quer seja para ajudar o outro a mudar de opinião, quer seja para amadurecer a sua ou ainda (e por que não?), para você verificar o que não via antes e mudar de opinião, não teremos democracia. Logo, com respeito, claro, mas devemos sim discutir política!
 
Religião. Apenas pelo fato de que nosso Mestre, Jesus, o Cristo, discutiu religião, já temos argumentação completa para discutir sim o assunto. Ele questionou Sacerdotes, Escribas, Fariseus, que eram autoridades religiosas e políticas em sua época. O que não podemos perder de vista, mais uma vez, é que o outro pode ter uma opinião diferente da sua. Isso não impediu Jesus de discutir o assunto. Foi duro muitas vezes. Mas não deixou de lado sua responsabilidade de falar sobre o assunto, apontando erros e acertos. Eu não posso querer que o outro aceite a minha opinião nem o outro deve querer isso de mim. Mas podemos discutir o assunto, para amadurecer a nossa crença. Aliás, devemos discutir, pois o fato de apresentarmos o que cremos a alguém que não crê da mesma forma (evangelismo) já é uma forma de discussão de religião. O que não podemos deixar de lado é que não será o nosso convencimento, nossa bela oratória, nossa bela argumentação, que fará alguém mudar de opinião. Será o Espírito Santo quem fará a obra. Nós anunciamos, jogamos “sementes”. O Espírito dará o “crescimento” a essa “semente”. Nós podemos ajudar, claro, no discipulado, “adubando” essa “semente”, ajudando no tratamento do solo. Mas esse é outro assunto.
 
Pense bem. Há frases que parecem definitivas e que podem estar erradas. Parecem que só vão ajudar, mas na verdade estão cheias de erros e de chances de irmos para o lado errado de uma questão.
 
Seguindo o amor ao próximo, podemos discutir futebol, política e religião. Se amarmos nosso próximo como a nós mesmos, iremos respeitar o direito do nosso próximo de ter uma opinião diferente da nossa, ainda que como Jesus tenhamos que ser duros ao apresentar nossa opinião. Ser duro não implica em ser mal-educado, “grosso” ou coisa do tipo. Ser incisivo é diferente de “grosso” e as pessoas confundem, tanto ao falar como ao ouvir! Muitas vezes achamos que alguém foi “grosso” e na verdade, foi incisivo. Outras, as pessoas acham isso de nós, mesmo que não tenha sido assim. Não iremos discutir apenas querendo que o outro aceite a nossa opinião como certa, mas iremos discutir, apresentando a nossa opinião, com argumentos e iremos necessariamente ouvir o outro, com suas opiniões e argumentos. Pode ser que uma conversa desse tipo não permita que quem esteja conversando chegue a uma conclusão em conjunto. Cada um poderá continuar com a sua opinião. Mas no mínimo esse tipo de conversa serve para alicerçar o que você acredita. Dará mais força nos seus argumentos, pois você poderá ver alguém dando pontos contrários aos que você entende como certos e você terá a chance de fortalecer seu pensamento, argumentando, ou de parar para pensar melhor no assunto ou ainda, até mudar de opinião. Claro que isso pode acontecer com você ou com a pessoa com quem você conversar sobre o assunto. Mas não podemos começar esse tipo de conversa achando que o outro terá que aceitar nossa opinião. Se isso acontecer, que bom. Poderá dar mais força para você continuar conversando sobre o assunto. Mas nós temos que nos preparar para a realidade que o outro também possui uma opinião e pode ser que não a abandone. Isso permite a discussão desses e de outros assuntos: aceitar que o outro tenha sua opinião, certa ou não.
 
Seguindo o amor a Deus sobre todas as coisas devemos discutir religião. Não de denominações ou meros rituais humanos. Mas a verdade do Evangelho, que liberta a todo aquele que crê de qualquer engano humano ou espiritual. Que Jesus, o Cristo, é o Filho de Deus, que veio ao mundo para na carne aniquilar as obras dessa carne, para em semelhança de homem, sujeito as mesmas coisas que qualquer ser humano está, vencer o pecado e a Morte.
 
Podemos, sim, discutir qualquer assunto, sempre levando em conta o respeito a opinião do outro. E permitindo a chance de que a semente da Verdade seja jogada para que o Espírito Santo possa fazer o trabalho que é Dele.
 
Voltando ao que comemoramos hoje, segue o Hino à Proclamação da República:

 
José Joaquim Medeiros de Albuquerque

Seja um pálio de luz desdobrado
Sob a larga amplidão destes céus
Este canto rebel que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus.
Seja um hino de glória que fale
De esperanças de um novo porvir!
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir!
Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós!
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz!

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre país
Hoje o rubro lampejo da aurora
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais! Ao futuro
Saberemos unidos levar
Nosso augusto estandarte que, puro,
Brilha avante da Pátria no altar!
Liberdade! Liberdade!...

Se é mister que de peitos valentes
Haja sangue no nosso pendão
Sangue vivo do herói Tiradentes
Batizou este audaz pavilhão!
Mensageiros de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder,
Mas da guerra nos transes supremos
Heis de ver-nos lutar e vencer!
Liberdade! Liberdade!...

Do Ipiranga é preciso que o brado
Seja um grito soberbo de fé!
O Brasil já surgiu libertado
Sobre as púrpuras régias de pé!
Eia pois, brasileiros, avante!
Verdes-louros, colhamos louçãos!
Seja o nosso país triunfante
Livre terra de livres irmãos!

Liberdade! Liberdade!...

 

Forte abraço.
Em Cristo,
Ricardo, pastor

Esta meditação foi enviada em 15/11/06 por e-mail.